4.1.09

Divagações em Forma de Palavras

Quando fui para a universidade e, consequentemente, viver sozinha, não fazia nem uma pequena ideia daquilo que viria a ser. Não tinha noção nenhuma, não tinha expectativas e confesso que ainda hoje não sei avaliar aquilo que realmente é. As semanas em Aveiro sempre passaram a correr, eu adoro lá estar e isso para mim sempre foi um ponto a meu favor e talvez daí as saudades da verdadeira casa não atingirem outra dimensão. Já chorei de saudade, na primeira semana custou imenso, - sim, essa é que parecia não terminar - já liguei à minha mãe naqueles momentos em que me sentia sozinha, já me questionei o que estaria ali a fazer, quando ligava a televisão à noite e fazia o zapping habitual, já tentei perceber a minha mudança de humor tão rápida que passava por mim à velocidade da luz. Enfim, já por lá senti muitas coisas - boas e más - mas nem por isso deixo de gostar de lá estar. É uma nova etapa. Nestes dois meses e umas semanas que lá estive, habituei-me à rotina dos fins-de-semana, durante dois dias queria tempo pra rever os amigos, a família, o afilhado, o Bergas (é o meu amado cão), saber as novidades, rever os cantos à casa, sentir o calor dos meus cobertores, gravar na memória o cheiro dos cozinhados da minha avó, as vozes das pessoas que me completam, os beijos, os abraços, as palavras de saudade, e a certeza de todos os domingos ouvir um "Boa sorte, boa viagem!". Comecei a gostar desta rotina. A adorar, aliás. Comecei a sentir as pessoas mais próximas de mim, - independentemente da distância, a saudade consegue aproximar - comecei a dar mais valor a pequenos minutos da minha vida e a guardá-los para mim. Guardava tudo o quanto podia e levava também, todas as coisas que me faziam pertencer mais aqui. Levei o meu copo - esse sim, é realmente meu - mas tudo o resto que eu levei foi apenas com o intuito de me sentir mais perto de casa e não por ser realmente meu.
Sempre fui muito agarrada às coisas, sempre fui de guardar tudo o que me fazia ter uma recordação. O meu quarto eram só papeis amassados com pequenas mensagens - mesmo que indiferentes -, bilhetes de cinema, cadernos da escola, recibos e talões de supermercado, coisas que mesmo estragadas ou partidas ainda faziam todo o sentido para mim. Sempre gostei de tornar tudo eterno até ao dia em que percebi que isso não era possível. Afinal, era o que eu queria fazer quando guardava tudo ao mais ínfimo detalhe - guardar situações e torná-las eternas. Dei por mim a entender que afinal, muitas coisas tinham um fim, quando comecei a perder amiga(o)s, quando tive a percepção de que aquilo que eu guardava e achava especial podia não ser para a outra pessoa. Arrematei algumas desilusões com esta minha forma de ser. Felizmente mudei. Ou achava eu... Hoje em dia, noto que volto a ter a mesma tendência que tinha há uns tempos mas de uma outra forma: ao invés de guardar as coisas materiais, guardo-as na memória. E isso preocupa-me, porque com a quantidade de coisas que sinto necessidade de memorizar e guardar, por este andar, vou ter de investir em muitas memórias até ao final da minha vida! Enfim, hei-de ser saudosista até morrer.

(Fotos: O meu Bergas e o meu quarto de sempre.)

6 comentários:

Joaninha disse...

Acho que és um bocadinho como eu... Muito saudosista!

Filipa disse...

És definitivamente igual a mim, ou pelo menos nesse aspecto. Quando vim para Braga estudar toda a família se aproximou de mim, e eu dela. Os meus avós, tias, pais e irmão. Tudo fica melhor só porque as saudades e a velha rotina de nos vermos todos os dias desapareceu de repente... E porque de repente eles reparam que já não somos mais as menininhas deles, q estamos a crescer e que vamos sair de casa e ser independentes. :) É uma muito muito boa sensação :)

Lau disse...

O Bergas e' lindo :D

Beijinho *

Ivan disse...

Bem, mas que post fizeste tu aqui... Deixaste-me surpreendido de certa forma se bem que passar tanto tempo contigo deixa-me perceber certas coisas as quais te referiste.
Um dia abro-me tambem e digo tudo o que senti em relação a esta mudança... Ainda não me abri o suficiente ao ponto de ninguem ter uma pequena noção que seja do que em mim mudou.

Amo-te

Ivan disse...

Estava a referir-me à mudança de quando fui para a universidade no ano de 2007/2008 pela primeira vez.
Quando tu foste para lá a mudança foi super positiva meu amor lindo <3 MESMO1 A MELHOR POSSIVEL, ACREDITA!!!

'C. disse...

és como eu. sou assim tambem. tenho caixas e caixas e caixas com coisinhas pequenas e aparentemente insignificantes, mas que em algum momento da minha vida foram importantes, marcaram algum acontecimento, e isso é lindo :)